segunda-feira, 3 de junho de 2013

PALAVRAS ACOLHEDORAS



    Embora esta tocante oração fúnebre tenha sido publicada por diversos jornais, encontra lugar igualmente nesta Revista, em razão da natureza dos pensamentos que encerra, cujo alcance todos poderão compreender. O jornal do qual a tomamos dá conta da cerimônia fúnebre nos seguintes termos: 

    Uma triste cerimônia reunia, quinta-feira última, uma multidão dolorosamente comovida no cemitério dos independentes, em Guernesey. Inumavam uma jovem, que a morte viera surpreender em meio às alegrias da família, e cuja irmã se casara dias antes. Era uma moçoila feliz, a quem um dos filhos do grande poeta, Sr. François Hugo, havia dedicado o décimo quarto volume de sua tradução de Shakespeare; ela morreu na véspera do lançamento desse volume.

   Como acabamos de dizer, a assistência era numerosa nesses funerais, numerosa e simpática, e é com viva emoção, com lágrimas que a amizade derramava, que ela ouviu as palavras de adeus, pronunciadas sobre esse túmulo tão prematuramente aberto, pelo ilustre exilado de Guernesey, pelo próprio Victor Hugo.

Eis o discurso pronunciado pelo poeta:

“ Em algumas semanas ocupamo-nos de duas irmãs: casamos uma e sepultamos a outra. Eis o perpétuo tremor da vida. Inclinemo-nos, meus irmãos, ante o severo destino.

    Inclinemo-nos com esperança. Nossos olhos não foram feitos para chorar, mas para ver; nosso coração não foi feito para sofrer, mas para crer. A fé numa outra existência nasce da faculdade de amar. Não o esqueçamos: nesta vida inquieta e apaziguada pelo amor, é o coração quem crê. O filho conta encontrar a seu pai; a mãe não consente em perder para sempre o filho. Esta recusa do nada é a grandeza do homem.

    O coração não pode errar. A carne é um sonho; ela se dissipa. Se esse desaparecimento fosse o fim do homem, tiraria à nossa existência toda sanção. Não nos contentamos com esta fumaça que é a matéria; precisamos de uma certeza. Quem quer que ame, sabe e sente que nenhum dos pontos de apoio do homem está na Terra. Amar é viver além da vida. Sem esta fé, nenhum dom perfeito do coração seria possível; amar, que é o objetivo do homem, seria o seu suplício. O paraíso seria o inferno. Não! digamos bem alto, a criatura amante exige a criatura imortal. O coração necessita da alma.

    Há um coração neste féretro, e esse coração está vivo. Neste momento ele escuta minhas palavras. 

    Emily de Putron era o doce orgulho de uma família respeitável e patriarcal. Seus amigos e parentes tinham por deleite sua graça e por festa seu sorriso. Ela era como uma flor de alegria a desabrochar na casa. Desde o berço era cercada de todas as ternuras; cresceu feliz e recebendo felicidade, dava felicidade; amada, amava. Ela acaba de partir.

Para onde foi? Para a sombra? Não. 

Nós é que estamos na sombra. Ela está na aurora.

    Ela está na glória, na verdade, na realidade, na recompensa. Essas jovens mortas, que não fizeram nenhum mal na vida, são bem-vindas do túmulo, e sua cabeça se ergue suavemente fora da sepultura, para uma coroa misteriosa. Emily de Putron foi buscar no céu a serenidade suprema, complemento das existências inocentes. Ela se foi: juventude, para a eternidade; beleza, para o ideal; esperança, para a certeza; amor, para o infinito; pérola, para o oceano; Espírito, para Deus.

Vai, alma!

    O prodígio desta grande partida celeste, que chamam morte, é que os que partem não se afastam. Estão num mundo de claridade, mas assistem, como testemunhas enternecidas, ao nosso mundo de trevas. Estão no alto, e muito perto. Ó, quem quer que sejais, que vistes desaparecer na tumba um ente querido, não vos julgueis abandonados por ele. Está sempre lá. Está ao vosso lado mais que nunca. A beleza da morte é a presença. 


   Presença inexprimível das almas amadas, sorrindo aos nossos olhos em lágrimas. O ser chorado desapareceu, mas não partiu. Não mais percebemos o seu rosto suave... Os mortos são os invisíveis, mas não estão ausentes.



    Rendamos justiça à morte. Não sejamos ingratos para com ela. Ela não é, como se diz, um aniquilamento, uma cilada. É um erro acreditar que tudo se perde na obscuridade desta fossa aberta. Aqui tudo reaparece. O túmulo é um lugar de restituição. Aqui a alma retoma o infinito; aqui ela readquire a sua plenitude; aqui entra na posse de sua misteriosa natureza; liberta-se do corpo, liberta-se da necessidade, liberta-se do fardo, liberta-se da fatalidade. A morte é a maior das liberdades. É, também, o maior dos progressos. A morte é a ascensão de tudo o que viveu em grau supremo. Ascensão fascinante e sagrada. Cada um recebe o seu aumento. Tudo se transfigura na luz e pela luz. Aquele que na Terra só foi honesto torna-se belo; o que foi apenas belo torna-se sublime; o que só foi sublime torna-se bom.


    E agora, eu que falo, por que estou aqui? O que é que trago a esta fossa? Com que direito venho dirigir a palavra à morte? Quem sou eu? Nada. Engano-me, sou alguma coisa. Sou um proscrito. Exilado pela força ontem, exilado voluntário hoje. Um proscrito é um vencido, um caluniado, um perseguido, um ferido do destino, um deserdado da pátria. Um proscrito é um inocente sob o peso de uma maldição. Sua bênção deve ser boa. Eu abençôo este túmulo.

    Abençôo o ser nobre e gracioso que está nesta fossa. No deserto encontram-se oásis; no exílio encontram-se almas. Emily de Putron foi uma dessas encantadoras almas encontradas. Venho pagar-lhe a dívida do exílio consolado. Eu a abençôo na profundeza da sombra. Em nome das aflições sobre as quais ela resplandeceu docemente, em nome das provações do destino, para ela acabadas, para nós continuadas; em nome de tudo o que ela esperou outrora e de tudo o que obtém hoje, em nome de tudo o que ela amou, abençôo esta morte, abençoo-a na sua grandeza, na sua juventude, na sua ternura, na sua vida e na sua morte; abençoo-a na sua branca túnica sepulcral, na sua missão que deixa desolada, no seu caixão, que sua mãe encheu de flores e que Deus vai encher de estrelas!

(Transcrição parcial de notícia inserida por Allan Kardec em Revista Espírita, fevereiro de 1865).